Por que sou ferroviarista?

- Antonio Pastori -

 

Avenida XV de Novembro 104, casa 5, Centro, Petrópolis, RJ. Parece letra de música, mas esse era o endereço que me lembro desde que me entendia por gente (gente pequena); una casa simples, no alto do morro, igual a muitas outras, com uma vista privilegiada para a Cidade Imperial, suas matas, montanhas e... para estação ferroviária da Leopoldina Railway, a famosa LR.  Da janela do meu quarto, era possível presenciar todo o movimento de trens de passageiros, cargueiros e mistos nessa estação: as chegadas, as partidas, e as a manobras na formação das composições.  

 

A Estação Ferroviária de Petrópolis  era uma experiência sensorial rica em imagens, sons dos apitos, sinos, rodas, cilindros, engates e dos odores do carvão, o frio dos metais e o calor da caldeira e do vapor das Marias-fumaça. Mas, aos poucos as vaporosas foram sumindo e esse festival foi rareando com a chegada, mais tarde, das loco diesel UB, vemelhinhas, com a logo da RFFSA. Tinham um cheiro diferente, forma quadrada, buzina a ar, e um sino.  

 

Jovem demais à época, eu ainda não tinha me dado conta do extermínio prestes a acontecer e não incomodei muito, pois ainda haviam muitas Baldwins-cremalheiras no alto da Serra, que faziam a ligação com a Raiz da Serra. Eram engraças quando estavam no plano; pareciam desengonçadas, como se fossem embicar na terra. Bonitas, garbosas, fortes, quando no plano inclinado da Serra da Estrela. Na minha inocência, acreditava que iam durar para sempre. Nunca pensei em fotografá-las - et pour cause -  isso era muito caro naquele tempo. Filmar? nem pensar... 

 

Até que um (triste) dia notei que elas - todas elas - sumiram por completo, juntamente como os carros de passageiro, vagões, trilhos, sinais... tudo, tudo!  Onde estavam elas, as velhas e fortes senhoras, que ainda trabalhavam com muita disposição, de forma precisa e segura, alheias a desgraça que lhes abateria em breve? Vítimas  inocentes, seriam abatidas uma a uma em nome de de uma imbecilidade sem precedentes que trocou os trens por uma modernidade que hoje nos custa caro, cobrando em perda de tempo, combustível e de vidas, ao privilegiar por demais o modal rodoviário. Terra arrasada, foi o que restou.  

 

Felizmente, duas delas foram preservadas: uma esta no Museu do Trem, no Rio, e a outra, exposta no anexo do Museu Imperial com um velho vagão da Grão-Pará acoplado à sua frente. Muitos anos atrás, ao visitá-la como de costume, notei seu aspecto majestoso porém triste, como um animal abatido e empalhado. Uma sensação de arrependimento e impotência me tomou conta. Acariciei seu dorso estático, silencioso e frio, com carinho. Ouso afirmar que a vi soltar uma lágrima, um pouquinho de vapor do cilindro....  shiiiiiiiiiiiiiii!   ...  que parecia dizer algo como: 

 

   - " Não  shiiii  esqueça de nós! " 

 

Antonio Pastori Petropopolitano, 57 anos Mestre em economia Membro do MPF Está empenhado na reativação da E. F. Príncipe do Grão-Pará (Trem Expresso Imperial) através do GT-Trem/COMTUR-Petrópolis

FUVI0111ADANAUL
FREE Joomla! template "Adana"
joomla 1.6 templates by funky-visions.de