A distância entre os trilhos

- Paulo Coelho

 

Certa vez, quando esperava minha editora polonesa numa estação de trem e não tinha absolutamente nada para fazer, fiquei imaginando qual seria a distância entre os trilhos. Resolvi perguntar a um funcionário da estação:

 

- Distam 143,5 centímetros.

 

Achei a resposta estranhíssima. O lógico seria 150 cm, ou algum número redondo, claro, fácil de ser lembrado pelos construtores e empregados.

 

- E por quê? – insisti. 

- Porque as rodas dos vagões têm essa medida. 

- Mas as rodas dos vagões são assim por causa da distância entre os trilhos, não acha? 

- As coisas são assim porque são.

 

Sem saber, parte de um dos meus livros (“OZahir”) estava sendo gerada ali. Até onde as coisas são porque são?

 

Resolvi procurar a resposta, sem qualquer esperança de encontrá-la. Para minha surpresa, achei mais de duas mil páginas dedicadas ao assunto. Uma das explicações mais interessantes – e simbólicas – é a seguinte: quando construíram os primeiros vagões de trem, usaram as mesmas ferramentas da construção de carruagens. Por que as carruagens tinham essa distância entre as rodas? Porque as antigas estradas foram feitas para essa medida. Quem decidiu que as estradas deviam ser feitas nessa medida? E aí voltamos a um passado muito distante: os romanos, grandes construtores de estradas, decidiram. Qual a razão? Os carros de guerra eram conduzidos por dois cavalos e, ao serem colocados lado a lado, eles ocupavam 143,5 cm.

 

Assim, a distância entre os trilhos usados por moderníssimos trens foi determinada pelos romanos. Quando os imgrantes foram para os Estados Unidos construir ferrovias, continuaram com o mesmo padrão. Isso chegou a afetar a construção dos ônibus espaciais: os engenheiros americanos achavam que os tanques de combustível deveriam ser mais largos, mas eles eram fabricados em Utah e seriam transportados por trem até o Centro Espacial na Flórida, e os túneis não comportavam algo diferente. Tiveram que se resignar ao que os romanos haviam decidido como medida ideal.

 

Descobri também que, para complicar ainda mais a vida de todo o mundo, países vizinhos usam bitolas diferentes. Assim, um trem precisa parar na fronteira e trocar todo o seu carregamento para outro (embora a França use 1,43m, a Espanha utiliza uma bitola de 1,67m).

 

Meu avô, que era engenheiro da Estrada de Ferro Central do Brasil, contava que no Brasil acontecia a mesma coisa. Fui conferir na internet e ele estava certo. Temos quatro medidas diferentes: a francesa, a espanhola, 25 mil quilômetros com bitola de um metro (não entendi!) e alguns quilômetros com 0,76cm de distância entre os trilhos.

 

E o que isso tem a ver com a vida? Tudo. Em um dado momento da História, alguém disse: vocês precisam se comportar assim. Não importa se isso foi em um passado remoto, se sabemos que os romanos decidiram o tamanho das estradas e ninguem resolveu fazer diferente. Muitas coisas precisam ser mudadas, mas não temos coragem.

 

Até que tenhamos, precisaremos continuar sorrindo nas fotos, jurando amor eterno, achando que universidade é a meta de todos, continuar variando de moda a cada estação e tendo essa incrível dificuldade em fazer com nosso trem de vida trafegue em lugares onde a medida de valores é diferente.

 

Fonte: Revista O Globo – Nº 238 – 15 / 02 / 2009 – Fls. 47

FUVI0111ADANAUL
FREE Joomla! template "Adana"
joomla 1.6 templates by funky-visions.de